O fotógrafo mal-preparado

De juliano.info

Essa é uma notícia simples, provavelmente sobre um acontecimento tão comum e trivial que sequer chegará à mídia em massa, mas que é um bom exemplo de um grande problema com a forma como computadores são utilizados na nossa sociedade:

Juiz condena estúdio fotográfico a indenizar clientes
Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, 16/mar/2009. Texto por Myrelle Motta.

O juiz Luís Antônio Alves Bezerra, do 8º Juizado Especial Cível de Goiânia, condenou um estúdio fotográfico de Goiânia a indenizar um casal em R$ 4 mil, por danos morais, e R$ 400 reais, por danos materiais, pela perda de metade das fotos de seu casamento. (...)

Eles pagaram à vista 800 reais por 50 fotos, mas o cartão de memória de um dos cds enviados para a escolha das fotografias estava danificado, sem possibilidade de recuperação. (...)

Os clientes do estúdio fotográfico, citados na notícia, são meus parentes. O problema está descrito de forma um pouco confusa no texto da notícia. Em resumo, o fotógrafo utilizou uma câmera digital com cartão de memória para fotografar o casamento. Quando este foi recuperar as fotografias do cartão de memória, elas não estavam lá.

O problema observado com a recuperação das fotografias pode ter sido causado por diversos tipos de falhas. A notícia aponta que o cartão de memória estava danificado. O cartão pode realmente ter apresentado um defeito físico, conforme descrito; contudo, a possibilidade do cartão de memória estar danificado, no sentido correto da palavra, é relativamente pequena quando comparado aos outros tipos de falhas que podem ocorrer. É perfeitamente possível (e na verdade, até mais provável) que o cartão não estivesse realmente danificado, mas sim, seu conteúdo fora corrompido.

Por desconhecimento do real funcionamento dos equipamentos eletrônicos, é muito comum as pessoas cometerem esse engano. Se alguma coisa não funciona, diz-se simplesmente que ela "está com defeito". Uma analogia seria usar uma máquina de escrever para imprimir caracteres aleatórios em uma folha de papel, retirar o papel da máquina, e dizer que o papel está com defeito porque o texto escrito nele não faz sentido.

Portanto, há duas possibilidades distintas para a falha em recuperar as fotografias do cartão de memória:

  1. O cartão de memória apresentava um defeito físico
  2. Os dados armazenados no cartão de memória foram corrompidos

Em qualquer um desses casos, a falha poderia ter sido tratada em dois níveis: Primeiro, a falha poderia ter sido evitada; segundo, quando impossível evitar a falha, esta poderia ter sido contornada.

Antes do surgimento da mídia digital, era comum aos fotógrafos profissionais conhecer todos os detalhes do processo de fotografia, desde como focar o assunto e o cálculo da abertura do diafragma, até a química envolvida na exposição, revelação e impressão das imagens. Sempre existiu o potencial de ocorrer falhas no processo, mas os fotógrafos conheciam os limites do equipamento, e por consequência sabiam quais os procedimentos corretos para evitar as falhas:

  1. Procedimento: Cada fotografia exige um procedimento para prever o sucesso de uma exposição correta, como: se o flash está carregado, se o ISO do flash corresponde ao ISO do filme, se o flash não está obstruído, se o contador de exposições está avançando, se a bateria da câmera está carregada, etc. (equipamentos modernos automatizam grande parte dessas verificações). Esse ritual, feito automaticamente e inconscientemente pelo fotógrafo, antes de cada fotografia, evita uma imensa quantidade de falhas que podem ocorrer.
  2. Limites: Todo equipamento possui limites e, quando operado próximo a esses limites, o equipamento pode funcionar de forma subótima, trazendo resultados não tão bons (ou até insatisfatórios) quando comparados à sua operação em condições ideais. Por exemplo, se o fotógrafo utiliza um filme de 36 exposições, não mais do que 36 fotos podem ser tiradas com aquele filme (ao contrário do usuário comum, que só para de tirar fotos quando a câmera trava, lá pela 37ª ou 38ª exposição). Os quadros muito próximos do começo e do final filme podem ser velados ou cortados, o fotógrafo profissional sabe disso, e os evita. A sensibilidade do filme é outro limite: quanto maior a sensibilidade do filme, mais fácil é capturar a luz, mais fácil é tirar fotos à noite e mais difícil é ter uma foto tremida; mas por outro lado, a qualidade gráfica das fotos (cor e granularidade) é pior. O fotógrafo deve conhecer os limites do filme que escolhe para a ocasião a ser fotografada e equilibrar a sensibilidade e qualidade do filme.
  3. Redundância: Diversas formas de redundância são utilizadas por fotógrafos profissionais experientes. Primeiro, múltiplas fotos são tiradas da mesma cena. Como as antigas câmeras fotográficas de filme não permitiam verificar o resultado da exposição até o momento da revelação, os fotógrafos precisam se precaver contra acidentes como: foco errado, reflexos do flash, olhos fechados, exposição tremida, etc. Só que ainda existe a chance do equipamento apresentar um defeito contínuo ou um acidente durante a troca de filme, que arruíne todas as suas exposições. Para contornar essa situação, ao invés de um fotógrafo com uma câmera, sabe-se que é mais seguro ter no mínimo dois fotógrafos, com duas câmeras, fotografando o evento.
  4. Contingência: A câmera fotográfica é um equipamento eletrônico e mecânico, o desgaste pode fazer com que ela se quebre durante seu uso. O fotógrafo profissional deve estar preparado para isso: não apenas o segundo fotógrafo (citado acima) deve dar cobertura nessa eventualidade, mas também uma câmera reserva deve estar preparada para substituir qualquer uma das câmeras utilizadas para fotografar o evento. A troca deve ser suave e natural, pois o fotógrafo não pode pedir para interromper a cerimônia enquanto resolve o problema com sua câmera.

A fotografia digital oferece inúmeras vantagens e, com a sua popularização, os fotógrafos profissionais a adotaram como ferramenta principal de trabalho. Contudo, as câmeras fotográficas digitais são pequenos computadores, e com isso chegamos ao ponto deste artigo: os fotógrafos profissionais de hoje raramente conhecem todo o processo envolvido na fotografia, isso porque estes não compreendem totalmente o funcionamento de um computador, sequer estão preparados para utilizá-lo.

Na verdade, isso não se aplica apenas a fotógrafos, é um problema geral da sociedade. Realidade chocante: Quase ninguém está realmente preparado para utilizar um computador.

É isso. Muitas pessoas fizeram diversos cursos de Informática, navegam na Internet, constroem complexas planilhas no Excel, editam imagens no PhotoShop, e até programam aplicativos e montam computadores, mas ainda assim não estão preparadas para utilizar um computador. Por mais incrível que possa parecer, mesmo entre os formados em cursos superiores de Ciências e Engenharia da Computação nas melhores universidades públicas do país (onde é de se esperar que todos soubessem utilizar um computador), ainda se vê erros sendo cometidos por que alguns não sabem operar um computador corretamente. O motivo dessa constatação e como ela poderia ser remediada serão tratados em textos futuros.

Voltando ao assunto original: como um fotógrafo pode atuar profissionalmente, utilizando como ferramenta principal de trabalho uma câmera fotográfica digital, que ele não compreende completamente seu funcionamento?

O fotógrafo da notícia acima provavelmente cometeu no mínimo três erros que um fotógrafo profissional não poderia cometer:

  1. Não possuía o conhecimento adequado para operar corretamente o equipamento fotográfico. Essa é a questão levantada nesse texto, e que é também a causa de seu segundo erro.
  2. Não seguiu um procedimento correto para fazer as fotografias. Quando a tecnologia simplifica demais um procedimento, os usuários relaxam seus padrões e ignoram os passos que deveriam ser adotados. Isso é observado constantemente na computação. É muito simples para o fotógrafo utilizando uma câmera digital acionar o botão de disparo, olhar o resultado imediatamente no visor e achar que a foto foi um sucesso. Se o flash estava obstruído ou se um reflexo arruinou a foto, o fotógrafo veria isso e imediatamente faria uma nova foto. Com isso ele esqueceu outros passos igualmente importantes, especialmente em como lidar com a mídia digital. Ele não estava preparado para evitar algumas falhas, pois a tecnologia o enganou fazendo-o pensar que estava tudo bem.
  3. Não havia a redundância adequada. Se o fotógrafo tivesse o conhecimento adequado, ele saberia que mesmo com a foto aparecendo no visor de sua câmera digital, ainda há chances de ocorrer falhas capazes de destruir todo o seu trabalho. Daí é necessário ter o segundo fotógrafo, com a segunda câmera fotográfica. Ele não estava preparado para contornar uma eventual falha que não pudesse ser evitada.

Como eu disse acima, há duas possibilidades para a falha alegada: o cartão de memória estava realmente com um defeito físico, ou os dados do cartão estavam corrompidos. No primeiro caso, teríamos que saber o que levou o cartão de memória a apresentar um defeito físico. Poderia ser um defeito de fabricação, onde a única solução possível teria sido contornar a situação através da redundância, o segundo fotógrafo. Poderia ser também um defeito causado pelo uso incorreto do cartão, como por exemplo, tê-lo exposto a altas temperaturas (um carro ao sol). Nesse caso, por não possuir um conhecimento adequado, um procedimento incorreto no armazenamento do cartão o danificou. Por fim, cartões de memória possuem uma vida útil, após um certo número de gravações é esperado que o cartão pare de funcionar. O fotógrafo provavelmente também não sabia disso.

No segundo caso, dos dados do cartão estarem corrompidos, as únicas razões para isso ocorrer são o procedimento incorreto e talvez algum defeito de software do computador ou da câmera. É comum as pessoas não saberem como o computador lê e grava informações em cartões de memória (e também pen-drives USB). Se o cartão de memória for removido sem antes notificar o sistema operacional (procedimento incorreto), o sistema de arquivos contido no cartão terá uma grande probabilidade de ser corrompido. O mais grave disso é que o sistema de arquivos pode parecer íntegro e essa corrupção permanecer durante um grande tempo até ser detectada (geralmente com a destruição de seus arquivos). Aqui, novamente, conhecer o procedimento correto é fundamental para evitar a falha (além da redundância, claro, para contornar uma falha que não possa ser evitada).

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