Experiência como professor universitário

De juliano.info

Eu terminei meu mestrado em fevereiro deste ano, e logo em seguida comecei a ministrar aulas na UNESP de Rio Claro, no mesmo curso em que me formei em 2005. Quando defendi minha dissertação de mestrado, em abril, eu já estava em meio às aulas.

Eu já havia ministrado palestras e minicursos sobre variados assuntos, além das várias apresentações para o grupo de pesquisa durante o curso de mestrado. Além disso, o Programa de Aperfeiçoamento de Ensino (PAE) da USP também colaborou bastante para a minha experiência. Contudo, essa foi a primeira vez que eu assumi a responsabilidade de uma disciplina universitária curricular para um semestre inteiro. Eis algumas coisas que eu aprendi durante o último semestre:

Os alunos definitivamente não fazem perguntas, nem mesmo quando não estão entendendo nada o que está sendo explicado. Não adianta perguntar se possuem dúvidas quanto à matéria, parece que há um bloqueio que os impedem de perguntar, talvez para não passarem vergonha frente aos colegas de turma (o que, dispensa dizer, não é desculpa para não fazer perguntas). Infelizmente, o professor só irá descobrir que os alunos não entenderam o conteúdo na correção da prova.

Na verdade, eu já sabia disso desde a minha época de graduação: os meus colegas vinham tirar dúvidas comigo, geralmente às vésperas da prova. Quando eu perguntava por que não haviam perguntado diretamente ao professor durante a aula, a resposta era que eles "não sabiam o que perguntar", no sentido de que eles estavam tão "perdidos" durante a explicação original que desistiam de perguntar. Sabendo disso, durante as aulas que ministrei, eu procurei dar maior ênfase em como os assuntos se conectavam com aquilo que eles já haviam aprendido em disciplinas anteriores e como estes assuntos se combinavam para produzir um resultado final. Não adiantou.

Uma dificuldade para o andamento do curso foi as aulas em laboratório. Sistemas Operacionais II, no curso de Bacharelado em Ciências da Computação da UNESP Rio Claro, é considerada uma disciplina prática. Por diversas razões, muita parte teórica sobre sistemas operacionais também precisa ser vista nessa disciplina. Mesmo a parte prática exige alguma explicação teórica antes que os alunos se coloquem a trabalhar. Aqui emerge o problema: durante as explicações teóricas, os alunos se distraem lendo e-mails, conversando em mensageiros instantâneo, fazendo trabalhos de outras disciplinas, etc. É um desgaste muito grande para o professor lidar com essa dispersão dos alunos.

Trabalho em grupo é outro problema que eu já conhecia da minha época de graduação, e eu não tive muito sucesso em fazer diferente. Sempre acontece a mesma coisa: aquele aluno que entende e é o mais esforçado faz o trabalho sozinho, os outros só assistem o primeiro fazer, isso quando assistem. Semanas depois, na prova, fica evidente quem é que fez o trabalho em cada grupo.

Outro problema relacionado a trabalho em grupo: os alunos deixam tudo para a última hora. Mesmo a disciplina sendo prática, tendo as aulas em laboratório dedicadas exatamente para essa finalidade, os alunos não acompanham e depois deixam para terminar o trabalho às vésperas da data de entrega. Para tornar as coisas mais complicadas, geralmente a entrega é próxima ou na mesma semana de provas ou final de semestre. Os alunos não tem tempo para fazer, claro.

E tem os alunos que não fazem os trabalhos práticos, simplesmente não entregam ou entregam trabalhos copiados. Não esperava que eu teria que lidar com isso logo agora, e muito menos que quatro grupos iriam entregar trabalhos copiados. Tais grupos tiveram uma séria reprimenda, e eu dei a oportunidade de substituírem a nota do trabalho por um artigo simples sobre um determinado assunto relevante à disciplina, valendo a metade dos pontos do trabalho. Foi uma péssima ideia. Os problemas se repetem: deixam para fazer na última hora, não dá tempo pois há outros trabalhos para fazer e provas para estudar, daí entrega de qualquer jeito (ou entrega trabalho copiado, novamente). Além disso, é um trabalho a mais para o professor corrigir, que não estava nos planos da disciplina.

Mas também tive vários acertos, seguindo valiosas recomendações que me foram passadas. O Prof. Dr. Carlos Norberto Fischer, grande amigo, meu orientador durante a graduação e também coordenador do curso durante esse semestre, me acompanhou durante toda a disciplina, compartilhando técnicas de didática e me ajudando a resolver os problemas que tive durante o curso. Algumas ideias eu tomei emprestadas do Prof. Dr. Marcos José Santana, meu orientador de mestrado, especialmente em como "negociar" as notas com os alunos. Meus estágios supervisionados (PAE) nas disciplinas de Redes de Alto Desempenho e Redes de Computadores durante o mestrado na USP, sob a supervisão da Profa. Dra. Luciana A. F. Martimiano e do Prof. Dr. Edson S. Moreira também ajudaram muito, em relação à preparação das aulas, desenvolvimento de requisitos de trabalhos, aulas práticas, etc.

Foi tudo muito bom, uma grande experiência. Neste próximo semestre devo ministrar mais um semestre de aulas, e espero fazer bem melhor. Contudo, outras prioridades estão disputando minha atenção: o doutorado.

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